quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Valsa


Um convite para dançar sempre foi a maneira mais complacente e simples de me convencer, de me arrancar das cobertas quentes que permanecem meu corpo em uma temperatura constante e que garantem um bem estar tão aconchegante, para deixar-me levar pela sonoridade dos ritmos de uma boa e antiga canção. Dessa vez ela acertou em cheio.

Antes, nunca havia me feito uma visita tão indesejada e ainda sim esperada. O óbvio era que nós duas sabíamos bem que nosso encontro estava prestes a acontecer, embora eu tentasse adiar de todas as formas, fugindo e fingindo para mim mesma. Pela primeira vez a dor bateu a minha porta com gentileza, tão tentadora, me concedendo uma única dança, uma valsa em meio à escuridão.

Isto acontecia em minha alma, àquele irrecusável convite me era oferecido enquanto eu ouvia as mentiras tão reais quanto às verdades que ele me revelava. Tudo ia se encaixando perfeitamente e me deixando cada vez mais sem saídas, eram tão previsíveis todas as descobertas, só não era previsível a minha imensa decepção acumulada, pronta para explodir, para me fazer cair no chão e deixar que maus sentimentos pudessem me acolher em um momento tão frágil.

Diante de tantas palavras, eu não aguentava mais ouvir nem meia frase, eu preferia algumas vezes continuar fingindo ou fugindo, do que suportar aquela que batia em minha porta toda vez que algo de ruim me acontecesse. Mas era notório que me renderia à valsa que me foi concedida, até porque não havia forças em mim para recusar ou mandá-la embora.

Em meio ao breu me deixei ser guiada pela dor, naquele instante ela pôs sua mão direita em minha cintura, enquanto a esquerda pegava minhas mãos e colocava sob seus ombros, procurava encontrar meu olhos que insistiam em não encará-la, e simplesmente fixavam o chão, o que era inútil e desesperador, e com isso meus passos iam fluindo nas batidas de sua música melancólica, eu apenas obedecia, os dois para lá e para cá conforme as regras.

No salão tão vazio eu chegava a acreditar que ali era só eu e minha dor, no momento meu melhor par de valsas, mais eram tantos sentimentos misturados, que meus convidados chegaram sem precisar que eu os chamasse formalmente. As lágrimas foram as primeiras á chegarem, e para acompanhá-la um pouco de mágoa, logo após, a raiva e a confusão, o arrependimento e o medo...

Eu olhava ao meu redor, tentando achar algo que pudesse dar fim naquela dança doentia, mas nem sequer a esperança se propusera a aparecer, ainda que eu procurasse pelo amor, ou pela cura, ou ainda que eu achasse o tempo para consertar as ilusões que em mim foram perdidas, mas não os encontrara de forma alguma.

Quando meu corpo já estava enfraquecido, minha mente não conseguia nem pensar em uma solução que me tirasse daquilo, deparei-me com um velho amigo que sempre esteve presente em minha vida, principalmente nos segundos em que estava despedaçada porque alguém despedaçou. Ah! O perdão, aquele que me procurava especialmente nos momentos em que eu não errava, mas naqueles os quais erravam comigo, ele teve o costume de me dar às mãos.
Neste caso, eu o abracei. De todas as formas que eu o conhecia, essa foi a mais marcante, aquela que me fez ver através do que eu sabia, entender o que era o perdão por si só, o seu significado mais esplêndido, o que me traria um retorno inigualável.

Perdoá-lo foi como ver o Sol pela primeira vez, esquentando meu corpo. Como tomar um banho de chuva, singelo, lavando minha alma de todos os males. Assim como dançar, com o amor mais forte que existisse em meu coração, que de fato era todo dele, e deixar que ele me guiasse em uma valsa, com uma música romântica, e um salão onde houvesse todos os bons sentimentos, mais que no chão só houvesse meus pés seguindo os dele, e que os bons sentimentos estivessem dentro de nós, assim como a felicidade, a paixão, o respeito. Assim como o perdão.

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