
Longe de mim, meu pássaro completa mais um ano de sua vida delirante, longe de mim, dos meus braços, dos meus abraços, dos meus pequenos e tortos passos, por caminhos errados, sem poder alcançar sequer por um segundo seus vôos por entre as nuvens carregadas de chuva em um céu escuro acinzentado, que ele mesmo procurou. Os ventos tão fortes dos dias nublados e das noites de inverno passam agora por mim e me arrepiam cada vez que ele insiste em trazer junto com o frio as lembranças de você, e você está longe de mim, meu pássaro! Logo de mim, que o amei em exato momento em que pousou em minhas mãos, sem pedir nada, apenas que pudesse lhe observar e lhe amar de todos os jeitos pelo que era e pelo que não era. Se fosse só amor, talvez fosse mais simples, mais há muito mais; Ensinei-te tantos caminhos e atalhos, te contei tanto sobre mim, te fiz tão meu, me protegi a todo instante sob suas asas, fiquei admirando o ninho que criamos para vivermos juntos então, mais agora está tão longe de mim! Sempre tão livre, como pode se deixar levar por outra revoada? Dói dizer que sei os motivos, ou melhor, que ele mesmo os me disse, também pudera, tanta confiança, e prefiro que tenha sido assim, a verdade, aliás, somos a verdade, mais por que não pensou que com isso ficaria longe de mim, meu pássaro?
Como ar que respirava eu sorria ao vê-lo brincar, e defendia-o ao ver alguém o recriminar, e com tanta audácia eu gritava se alguém só mencionasse que iria me impedir de acariciar seu rosto. Lembrei-me de como o céu estava no dia em que lhe machucaram, como estava tenebroso, quando feriram o meu pássaro, como eu corri, e como as lágrimas corriam pelo meu rosto acompanhando meus pés, lembro-me de sua dor, que durou ainda mais alguns dias, e isso era tão revoltante; E desde então percebi que meu coração não podia ver alguém sequer tocar em um fio seu ou sequer parar seu vôo tão esplêndido, sequer ousar em ofendê-lo com palavras ou atitudes, sequer chegar perto. Mas ele se recuperava tão rápido de todos os seus tombos, era tão incrível ver sua partida, o seu abrir das asas, era tão magnífico tudo que ele fazia, mais nada mais posso ver se está longe de mim; Mais eu o entendo tanto, eu compreendo tanto ele ter caído no erro, nos seus próprios erros, o entendo ter literalmente caído, tão derrotado, entendo, e até aceito, embora com tanta, tanta dor, dele ter sido aprisionado em gaiolas, em meio a outros pássaros com suas histórias, entendo, aceito, mais rezo.
E longe de mim eu rezo dia após dia, a cada noite, a cada suspiro que ele dá nos meus sonhos, eu rezo tanto para que eu possa reerguê-lo, para que livre ele possa aprender, para que livre ele possa voar por céus azuis claros, por entres as nuvens brancas não mais carregadas, que ele possa enfim ficar mais uma vez perto de mim.
***
Tire de mim minhas medalhas, meu troféus, ainda tenho minhas forças capazes de resgatar cada título; Tire os registros das minhas vitórias e glórias, arranque dos meus livros os melhores capítulos, ou então acabe com o livro inteiro, ainda tenho a memória como minha fiel aliada. Tirem de mim os meus passos, todos os meus abraços, todo o meu espaço, meus laços, juro que ainda tenho tudo, e ainda que não fosse o tudo, teria ao menos a razão para saber que o amanhã existe. Só não tire de mim aquele que me ensinou a voar, aquele pequeno pássaro que me protegeu em suas asas e me fez conhecer toda sua revoada, ainda que delirante, errante, e muito errante, ainda que pelos caminhos errados, nos perdêssemos entre a fumaça que embaçava-nos os olhos, entre os perigos que nós mesmos criávamos, ele me ensinou a voar, e isto é algo que a razão desconhece, e sem ele, sem o tudo, e sem a minha razão, só me restaria à fé para continuar os meus dias e implorar para que o Senhor dos Senhores fizesse meu pássaro voltar para mim, voltar voando com suas belas asas e pousar sobre minhas mãos. Entende agora Meu Deus, porque é que eu converso contigo? Entende agora o que venho lhe pedir?
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