
Certo dia reconheci tal rapaz, e lhe entreguei meu coração, mais não entreguei pelo amor carnal, pelo amor do toque, ou pelo amor entreolhares, pelo amor da pele, dos beijos, não havia um amor á dois, não existia um amor de homem para mulher, nem sequer havia sexo, masculino ou feminino, havia somente o amor. Sim, aquele amor puro, sem frescuras, e sem pedir nada em troca, um amor com ar ingênuo e base inocente, como se fosse na verdade duas crianças que não vêem o mundo ilusório em que realmente vivem, como se o importante fosse brincar, brincar, e brincar, como se e somente se importava o amor, só o amor. Talvez ache um pouco ousado da minha parte, relatar aqui um amor tão sincero que para muitos seriam até impossíveis, mais com ele aprendi um amor diferente, que me fez acreditar em um amor de duas pessoas contendo apenas um forte abraço, boas conversas, umas risadas pra dividir, e umas bebidas para relaxar. Pois é, com o David conheci as aventuras alucinantes de uma vida bastante errada, saltar sobre as pedras, correr na areia, sair pelas ruas e conhecer todos os seus amigos, cair no mar. Aprendi muito nesse tempo sobre o seu jeito, conheci seu andar marrento, seu jeito como segurava os cigarros, como mexia nos cabelos, e todas as vezes que o pintou, descobri como seu olhar ficava quando se sentia triste, e quando se sentia bem. Conheci as pessoas que o amavam, e as pessoas que simplesmente fingiam. Em uns lances, eu conheci todos os seus lados, e confesso que as qualidades não foram às únicas perceptíveis, com elas sempre vinham os defeitos, e por isso, descobri um David muitas vezes arrogante, em alguns momentos parecia nem ligar, e talvez não ligasse mesmo, e talvez eu fosse ainda muito imatura para entender suas atitudes que eu considerava infantis, e por isso, me afastei. Assim permanecemos durante um bom tempo, trocando algumas ofensas e alguns sorrisos feridos também, algumas vezes queríamos nos falar, outras nem sabíamos quem éramos, e assim prosseguimos até ele vir em minha direção com os cabelos enrolados, com seu andar, seu ar de poder, e seu cigarro por entre os dedos da mão esquerda, abrir um sorriso e dizer: “Você acredita que perdi meu maço de cigarros?”, nessa hora pude soltar uma boa gargalhada e por um segundo relembrar da época que vivemos. Saudades; Ele se sentou na mesma mesa que eu e dividimos novamente, os abraços, as boas risadas, e as bebidas. Vi-me novamente entrelaçada com a sua vida errante, e sinceramente, não estava nem um pouco arrependida, demos um tempo para nos reconhecermos e entendermos o que mudou em nós mesmos, e o fizemos com muita sutileza, e compreensão! Embora houvesse ainda algumas mágoas, conseguimos superá-las, quer dizer, ele muito mais do que eu, que ainda esperava ansiosamente um pedido de desculpas, mas não o obriguei, fingi que esqueci. Com o passar do tempo deixei-me mais leve para me abrir com ele, mais a distância era sempre um grande obstáculo, dessa vez não queríamos ficar longe, mais foi inevitável, nos afastamos. Vivi o que tinha que viver, e com certeza David fez o mesmo, para mim não foi uma fase muito boa, e para ele, bem, o David não vivia fases ruins, pelo ao menos não aparentava, e então depois deu me desligar de todas as situações difíceis que encontrei em meu caminho, voltei ao lugar onde nos criamos; Meus olhos conseguiram alcançá-lo á uma certa distância, e me senti bem, só de poder vê-lo, e de modo que ele se aproximava, eu esperava pela sua primeira palavra: “Irmã!”, assim me chamou, com os olhos brilhando, e eu deixei meus braços o abraçarem, e me senti melhor do que havia me sentido antes quando estava o observando, ele me deus as mãos e nem deixou que eu falasse nada: “Desculpa, eu errei, mais pelo ao menos estou lhe pedindo agora, porque reconheci que errei”, depois dessas palavras não precisei dizer mais nada. E assim continuamos com nossos abraços e conversas. Quando de repente me lembrei do dia que reconheci e entreguei meu coração a um rapaz... Eu não sabia, mais agora sei, ele já havia me entregue o dele há muito tempo! E aquele rapaz, que hoje eu reconheço como meu irmão, continua em seu caminho errado, com nossas bebidas e sorrisos, e eu ainda não sei bem ao certo, mais seu caminho sempre se cruza com o meu, de algum jeito.